Uma morte midiática

Micheli Aguiar
7º semestre

Michael Joseph Jackson. Um artista irreverente. Para a maioria dos críticos, um artista completo. Excelente dançarino, ótimo cantor e compositor. Uma figura emblemática, que revolucionou o videoclipe. É dele também o maior recorde de vendas de um único álbum - Thriller, de 1982 já vendeu mais de 109 milhões de cópias. No contraponto a figura, digamos bizarra do rei do pop, muitas vezes roubou a cena.

Na quinta da semana passada, morria aos 50 anos, em circunstâncias ainda não esclarecidas, Michael Jackson. O músico dono de uma legião de fãs andava distante dos holofotes da mídia. Mas sua morte o fez se tornar o principal “conteúdo” das televisões brasileiras. Foram horas incessantes. O que para os críticos da mídia, nada mais é do que o uso da retórica. Silverstone afirma que a retórica midiática “sobretudo a mídia factual: tem a capacidade de nos convencer de que o que ela representa realmente ocorreu”. Com isso não há dúvidas. Michael Jackson morreu.

É impossível calcular os minutos - intermináveis, de notícias sobre sua morte. Vieram a público praticamente todos os escândalos protagonizados pelo cantor. Todas as boas ações também. Mas mais. Muito mais de sua vida. A morte do rei do pop pode-se dizer foi um espetáculo de mídia e para a mídia. Em todos os canais de televisão e mesmo na internet o que se viu foram poucas “novas notícias” sobre o astro. Viu-se e reviu-se o que já há anos víamos. Talvez agora com textos novos. Sempre encerrando com o “mundo perdeu o grande nome da música pós anos 80″.

Nunca se viu tanto videoclipe de um único artista. Nunca se falou tanto de uma só figura. Suas mutações, anos após anos, foram mostradas diversas vezes. Essas transformações protagonizadas por Jackson mostram o que o homem é capaz de fazer para impressionar os outros e a si mesmo. Butler já dizia que “o corpo generificado é performativo indica que ele não tem nenhum status ontológico separadamente dos vários atos que constituem sua realidade”.

Esta realidade muitas vezes criada, ou sempre criada, foi parar em telejornais importantes no contexto nacional, que simplesmente dedicaram edições praticamente inteiras a noticiar a morte de Jackson. Repórteres de renome entram em links ao vivo falando sobre qualquer coisa relacionada ao astro. Imagens e argumentos construídos e administrados sucessivas vezes na mídia (e aqui sem analisar internet). O que se viu neste espetáculo criado pela mídia, de acordo com Cícero foi a “repetição, redução, exagero, atenuação, ironia, hesitação, distinção, correção de informações”.

É como se fosse um jogo. Quanto mais a televisão dá, mais a audiência quer. As pessoas falam na rua. Comentam nos ônibus. Partilham informações. Servem de cases de fãs “inveterados” para programas. Silverstone diz que “mídia e público partilham um contexto de ação em que ambos são agentes, em diferentes graus, de diferentes maneiras e em diferentes momentos”. Prova disto é como os internautas usuários do twitter fazem especulações sobre a morte do astro. Logo estas discussões param de alguma maneira na grande mídia televisiva.

Não importa que toda essa performance tenha, por sua vez, sido apropriada, para não dizer encorajada e sustentada, pela própria mídia. A questão é que própria performance é uma apropriação popular em que significados foram compartilhados e experiências compartilhadas foram produzidas e são divulgadas. É um fazer e uma coisa feita, oscilando entre passado e presente, presença e ausência, consciência e memória tendo como enredo principal e central é a figura exótica e carismática de Michael Jackson.

Examinar o que se vê na mídia é examinar como os significados são produzidos e arranjados. É também investigar a audiência. É compreender como os truques são criados e os clichês mobilizados em mudanças de gosto e estilo. Essa exploração sobre a vida e morte de Michael Jackson também leva a outro ponto. O cantor hoje bom, pai preocupado, apesar de estranho, outra hora era o vilão, lógico que em termos. O que fica aqui de análise é como uma morte muda a figura de um artista junto à mídia. Recorrendo a Silverstone ainda em Por que estudar a Mídia  ele fala que “a tragédia, implicando, como o faz, a imitação de temas sérios numa versificação grandiosa, assim como exibindo os homens como melhores do que são no presente” nos faz ver que Michael Jackson é quase um santo.

dia 4 de July de 2009
Deixe seu comentário




(*)campos obrigatórios.