Michael Jackson e a perda da fronteira entre o “interesse público” e “do público”

Cler Oliveira
7º semestre de Jornalismo

“25 de junho foi o 11 de setembro do pop”. Dificilmente alguém ousa discordar da afirmação do jornalista Pablo Myakaza, que em sua  coluna o portal IG, tentou definir como seria lembrado o dia em que o mundo viu morrer o rei do pop Michael Jackson, um nome que, do clichê de menino pobre tornou-se em um dos produtos de mídia mais rentáveis dos últimos 30 anos. Um dos motivos que o tornava num dos assuntos mais atraente de todos os tempos era que Michael conseguia ser um misto de poder e fragilidade, respeito e, por conta de seu inexplicável comportamento, uma espécie de piada pronta, a união entre o sagrado e o profano, a mistura entre a sensualidade e o assustador. Por vezes foi impossível não questionar como que o Rei do Pop, apesar de toda a exposição, ainda conseguia ser um quebra-cabeça envolto de mistérios que, nem a mídia não conseguiu desvendar.

Mesmo depois de sua morte, a cada instante, surgem novos fatos que tentam explicar velhos acontecimentos e revivem, de forma inevitável, todos os escândalos, polêmicas em torno de sua sexualidade, suas finanças, da cor de sua pele, seus relacionamentos e todo o circo de horrores que permearam sua carreira de sucesso. Uma carreira que, ainda assim, consegue ter, de forma quase intocável, o merecido reconhecimento por parte do público e dos meios de comunicação.

Porém esse episódio nos remete a discussão amplamente estudada por Luciane Tófoli sobre o papel da imprensa diante de um acontecimento, seus limites e suas possíveis conseqüências.  O reflexo da notícia da morte do astro, no site TMZ, na noite de 25 de junho, foi imediato. Poucas horas depois do post ter ido ao ar, foram registradas diversas panes nos principais portais de notícias do mundo. Ate mesmo o mais conhecido buscador da internet, o gigante Google, foi abalado pelo volume de pessoas que acessavam a web em busca de informações concretas ou de notícias que justificassem o fato, até aquele momento surreal.

As notícias, mesmo que sem muita informação, eram dadas a esmo, de forma que já  não era mais possível diferenciar o que era de interesse público do que poderia ser de interesse do público. O site Terra, por exemplo, em sua matéria sobre a morte de Jackson, publicou uma foto na qual mostrava o cantor recebendo oxigênio, imagem considerada por muitos deprimente e desnecessária, repúdio expressado por alguns usuários no Twitter.

A linha entre a informação e o sensacionalismo, diante da comoção mundial, tornou-se mais tênue do que o habitual. Histórias sobre os supostos casos de pedofilia do astro, sobre seu estado de saúde física e mental, os desentendimentos com membros polêmicos da família Jackson misturaram-se rapidamente  a discussões envolvendo os filhos do cantor, que pagavam, em um momento delicado, as conseqüências de serem seus herdeiros. O destino da herança  tornou-se em um evento após a morte de Michael tão midiático quanto o seu desaparecimento. De maneira pouco sensível, os meios de comunicação divulgam, não raras as vezes omitindo suas fontes, informações que abre a discussão de as crianças não serem filhos biológicos do rei do pop. A pergunta que fica, diante desse tipo de noticia é: o que justifica a intensa divulgação desse fato? Quais as conseqüências que essas noticias podem trazer a essas crianças que, independente de serem filhos biológicos ou não de Michael, não passam de crianças? Os detalhes envolvendo a vida dos menores, salvo uma plausível justificativa, deveria seguir os  princípios éticos de noticiabilidade.

Aparentemente, com a velocidade de informação, temos um código velado no qual, se um influente meio de comunicação noticiou um fato, há o consentimento de que os demais podem fazer o mesmo. Com a prática do mimetismo midiático (Ctrl+V, Ctrl+C), a disseminação dos blogs profissionais e não-profissionais, isso se torna cada vez mais recorrente. No caso Michael Jackson, com o passar dos dias,  há um enfraquecimento das notícias. Não há fatos novos, e o que aprece como novo, muitas vezes é irrelevante. Curiosamente, esse enfraquecimento parece não ser diretamente proporcional ao constante interesse do público sobre o assunto. Muitos blogueiros que noticiaram  a morte ou que simplesmente prestaram tributos a Jackson afirmam  receber um número constante de acessos em seus registros. Nos portais de noticias onde é possível saber quais foram os assuntos mais procurados, o nome do rei do pop aparece em 100% dos casos. No site Twitter,  a expressão Michael Jackson, assim como a variante MJ,  está entre as 10 mais citadas no microbloging. Ou seja, mesmo que exista um esgotamento de novas informações, elas continuam circulado e, para isso, os meios de comunicação se vêem obrigados a ultrapassar os limites entre o ético e o sensacionalista, buscando ângulos irrelevantes para alimentar a  opinião publica, mesmo que, para isso, se pule etapas do processo ético que constitui o jornalismo.

dia 4 de July de 2009
  • Mariana Bonito disse:
    5 de July de 2009 às 12:31 pm

    Infelizmente a midia sensacionalista esta atras dele mais uma vez! O que importa agora o que ele fazia ou nao? Ele se foi e grande parte das bizarrices dele eram em resposta a midia sensacionalista que o destruia,sempre o tratava como um ET,uma pessoa de outro mundo.Esqueceram que ele era simplesmente um ser humano com sentimentos e muita inseguranca,que se deixou levar pelo que a sociedade pensa e exige.
    Que ele possa descansar em paz, que os filhos dele possam achar o conforto e carinho na familia dele!
    Cler
    a materia ficou otima!!!
    *teclado em ingles

  • Fabielle Barbosa disse:
    4 de August de 2009 às 10:02 pm

    Infelizmente é exatamente o que acontece, o jornalismo hoje em dia não se preucupa mais com a relevancia em si dos fatos, mas sim com o interece do público alvo e com o lucro que isso o trará!
    Gostei muito do seu texto…

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