Professor de jornalismo da Unisinos afirma que ausência do Foro de São Paulo na mídia de massa trata-se de opção claramente ideológica.
Vanessa Reis
Estudante de Jornalismo
Na esperança de que os interessados tenham lido o post anterior, partiremos hoje para as primeiras opiniões que colhemos. Caso ajude, o parágrafo abaixo reafirma mais algumas informações.
O Foro de São Paulo é a coordenação estratégica do movimento revolucionário comunista no continente latino-americano. Foi fundado em 1990 por Fidel Castro e Lula. A existência do Foro e suas atividade estão muito bem documentadas nas atas das assembléias gerais e grupos de trabalho dessa organização (…). Também a atividade do Foro foi bastante documentada pelo próprio Lula num discurso feito em 2 de julho de 2005, quando do 15º aniversário do FSP. Nesse discurso Lula confessa que tomou várias decisões de governo em reuniões secretas com Hugo Chávez, Fidel Castro e, inclusive, com líderes das FARC, sem ter dado disso a menor satisfação, seja ao Congresso, seja à opinião pública em geral. Isso basta para mostrar o alcance e a profundidade da ação dessa organização que vem interferindo na vida nacional há muitos anos, sem que uma só palavra seja noticiada pela grande mídia.
Na última quinta o professor Pedro Osório respondeu à pergunta “Na sua opinião, por que o Foro de São Paulo não aparece na mídia de massa?”
Pedro Osório: Eu acho que não sai pelas mesmas razões que aqui na região, durante dez anos de existência do orçamento participativo, os jornais não noticiaram. Trata-se de uma opção claramente ideológica. Essas informações estão disponíveis, é um evento que acontece há muito tempo. Ele é conhecido no meio acadêmico e é conhecido pelas pessoas que se interessam por este assunto. Ele circula nos meios alternativos, mas a grande mídia não dá espaço. Não se pode achar que algum jornalista, nesta altura, que algum editor não tenha informação sobre isso aí. É um daqueles tantos casos em que os critérios jornalísticos são todos atendidos, é relevante, está próximo… A julgar pela prática editorial, ele deveria ser notícia, entretanto é desconsiderado. Trata-se de uma opção ideológica, né!? Uma opção editorial de cunho ideológico.
V: Esquerdista?
Pedro Osório: Não sei, aí cabe apreciar se é uma ideologia esquerdista ou não. O fato é que é uma opção que não é editorial, meramente. Porque mesmo se fosse uma opção editorial, teria algum destaque, na medida em que é um evento importante. Não sei se nas áreas de Ciências Sociais, por exemplo, esse tema não é abordado. Mas o fato é que nos meios de comunicação não. Onde a gente encontra? Nos meios de comunicação alternativos, na internet. Nos meios de comunicação de massa, nunca. Não que eu me lembre. Se a gente considerar que isso ocorre há tantos anos e em nenhum momento teve espaço, é evidente que não se trata só de uma decisão editorial.
Agora vem um ótimo exemplo do duplipensar. Como duas coisas antagônicas podem ser afirmadas ao mesmo tempo como se não houvesse contradição.
V: Considerando o objetivo do FSP, é óbvio o porquê de não haver interesse de falar sobre isso?
Pedro Osório: Acho que sim. Acho que essa discussão não interessa. É uma opção de direita, mesmo. A opção por não noticiar é uma opção de direita, seria. Quem não noticia tem restrições quanto a essa visão de mundo de esquerda, portanto tem uma visão de mundo de direita.
V: Logo deveria falar, para escancarar, para mostrar o que querem fazer. Se você é de esquerda, você mantém a coisa embaixo do pano.
Pedro Osório: Seria uma opção. Ou então procurar divulgar de outros modos.
V: Mas não divulgam de jeito nenhum.
Pedro Osório: A esquerda não tem meios de divulgar isso, não tem meios de comunicação de massa. Na imprensa alternativa, na imprensa sindical, isso aparece. Agora, a direita, que poderia tratar desse assunto, seja para atacá-lo, ou seja para esclarecê-lo, ela não fala. Por isso que eu acho que é mesmo uma opção ideológica, não é outra coisa. E isto é grave. Essa opção ideológica não pode se impor de tal forma sobre o jornalismo que impeça o público de ao menos ter informações básicas sobre o que está acontecendo. Então a gravidade que é relevante nisso é que os jornais não devem permitir que esta posição ideológica se imponha sobre um determinado fato a ponto de não noticiar nada, e isto é ruim para a sociedade. Porque a sociedade não consegue formar uma opinião. Não tem informação nenhuma. Quando tem é uma informação muito próxima, muito comprometida com o quorum. É um deserviço para os dois lados.
* * *
A quem interessar possa
Discurso do Lula, disponível no site do Planalto
Post anterior > O que você não vê na TV e não lê no jornal
O que é o duplipensar? De acordo com Wikipédia e Mídia Sem Máscara.
Cadê os créditos da imagem? ¬¬