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25/04/2008
O crime que virou espetáculo
Daniela Cristina Machado
Aluna de Jornalismo
De tempos em tempos acontece um
fato que choca e ao mesmo tempo mobiliza o país. Quando
se refere à violência praticada contra uma criança,
a proporção desse acontecimento toma rumos inimagináveis.
Um ano e dois meses atrás, João
Hélio Fernandes Vieites, de 6 anos, foi mais uma vítima
da falta de segurança pública no nosso país. No dia
7 de fevereiro de 2007, o menino estava no carro com
a mãe quando foram abordados por assaltantes, no bairro
Osvaldo Cruz, Zona Norte do Rio de Janeiro. A mãe saiu
do veículo, mas não conseguiu retirar a criança, que
estava no banco traseiro, presa ao cinto de segurança.
Durante 7 km João Hélio foi arrastado pelo carro conduzido
pelos bandidos.
Há um mês, no dia 29 de março,
Isabella Nardoni, de 5 anos, morreu após ser asfixiada
e jogada do sexto andar de um prédio de classe média
localizado na Zona Norte de São Paulo. O pai, Alexandre
Nardoni, e a madrasta, Anna Carolina Jatobá, são os
maiores suspeitos de terem cometido o crime.
Os que esses dois casos têm em
comum não é apenas a atrocidade com que foram cometidos,
mas também o sensacionalismo provocado pela mídia e
pela população. Claro que os veículos de comunicação
estão cumprindo o seu papel de informar, contudo essa
cobertura passou dos limites. Até um salão de beleza
que funciona defronte a delegacia onde estão transcorrendo
as investigações, chegou a lugar a sacada para cinegrafistas
e fotógrafos pegarem os melhores ângulos dos acusados
e das testemunhas. O pai e a madrasta de Isabella precisam
de ajuda policial para sair de casa tamanha a aglomeração
dos jornalistas e do povo.
Para que tudo isso? O caso Isabella
Nardoni virou novela, mini-série. Pessoas deixam de
trabalhar para ficar em volta da delegacia ou da casa
do pai e da mãe da menina. Fico me perguntando por que
elas não se juntaram para lutar por melhorias na segurança
pública, na educação e na saúde ao invés de tentarem
fazer a justiça com as próprias mãos. O caso do menino
João Hélio também teve esse sensacionalismo, todavia
já foi quase esquecido. Ou por acaso alguém viu essas
mesmas pessoas que cercaram a delegacia onde estavam
os assassinos de João Hélio protestando em Brasília
por maior rigor nas leis penais?
Não, ninguém viu. Parece que a
maioria só quer ter alguns minutos de fama em rede nacional.
Cansei de ver repórteres sem ter mais o que falar do
fato perguntando à opinião pública Quem é o autor
do crime? Pensei que esse era o papel da Polícia.
Para se ter uma idéia de como as
pessoas foram influenciadas pela mídia no envolvimento
com o caso, o site de relacionamentos Orkut possui
mais de mil comunidades relacionadas à Isabella. A maioria
delas pedindo justiça. Diversos perfis foram criados
para Alexandre Nardoni. Pessoas se passam por ele, para
abrir um espaço onde todos possam deixar seu recado.
A página de Ana Carolina Oliveira, mãe da menina, registra
centenas de scraps, os quais passam palavras
de consolo de brasileiros que moram dentro e fora do
país.
O portal de vídeos YouTube
tem 643 vídeos postados referentes à Isabella, sendo
que a sua quase totalidade dedica-se a homenageá-la
com fotos e músicas. Os portais de notícias, os telejornais
e as rádios estão atualizando o caso a todo o momento.
Os jornais e revistas estampam em sua capa reportagens
especiais sobre o caso. Esse é o assunto do momento,
quase não se fala de outra coisa.
Até o mês passado não sabíamos
nem que Isabella Nardoni existia, hoje conhecemos sua
casa, o colégio onde estudava e os coleguinhas. Sabemos
quais eram seus hobbies preferidos, assistimos
vídeos de seus aniversários e apresentações de dança
e teatro, fotos de seus passeios, etc. Enfim, ela acabou
se tornando parte de nosso cotidiano, pois ao entrarmos
em contato com qualquer veículo de comunicação lá vai
estar o caso sendo noticiado. E mesmo que consigamos
fugir da mídia, em casa, na escola, no trabalho, no
supermercado, no bar da esquina, o assunto vai ser discutido
pelas pessoas.
Ao mesmo tempo em que a grande
maioria da população brasileira se interessa em saber
as novidades das investigações, outra mísera minoria
protesta. Silenciosa e quase imperceptível. Como a comunidade
CASO ISABELLA=SENSACIONALISMO! que possui apenas
182 membros, número muito inferior à comunidade ISABELLA
NARDONI * Isabella *, com 135.023 membros.
Será que essa mesma mobilização
aconteceria se a menina fosse de uma família humilde?
Certamente ganharia apenas um pequeno espaço em alguns
veículos de comunicação e com certeza não ocuparia 35
minutos da programação do Fantástico.
Não quero parecer incessível. Também
fiquei chocada e indignada com a morte de Isabella.
Mas a questão que estou criticando aqui é o grande espetáculo
que a mídia criou em cima desse caso.
O problema maior é o proveito que
alguns estão tentando tirar dessa situação. O YouTube
está sendo um dos espaços onde esses sujeitos procuram
se auto-promover por conta desse crime. Existe um vídeo
chamado Isabella Nardoni Música preferida dela
que na verdade não passa de um videoclipe caseiro
de funk que não tem nada a ver com a garota. Ao olhar
o número de acessos (15.853), podemos notar que todas
essas pessoas, assim como eu, procuravam informações
sobre Isabella e acabaram se deparando com um tal de
Mc Waguinho fazendo performances para a câmera.
Mas o pior ainda não é isso. Ao
digitar no campo de busca do Facebook o nome
da menina encontrei, entre as diversas notícias, opiniões,
fotos, vídeos, sites e blogs, charges de humor negro
sobre o caso. Uma delas mostra (em formato de desenho)
Isabella era chamada a voar por Peter Pan. Sem pensar,
a menina se joga da janela e cai no jardim do prédio.
Outras duas comunidades do Orkut acreditam que
a justiça só será feita se chamarem os personagens do
filme Tropa de Elite e do seriado americano CSI.
Pessoas que fazem esse tipo de
brincadeira com um fato tão sério, são tão ou até mais
insanas como esses criminosos que mataram Isabella e
João Hélio. Sem dúvida a mídia, ao insistir tanto em
um mesmo assunto, incentiva a produção virtual tanto
da avalanche de materiais de apoio à mãe e homenagens
a menina, quanto brincadeiras sem nenhuma graça.
Enquanto a imprensa se mobiliza
no caso Isabella, 110.783 pessoas foram infectadas pelo
mosquito da dengue só no Rio de Janeiro e outras 92
já morrem. Estamos diante de um grave problema de saúde
pública que atingir todo o país e faz mais vítimas a
cada dia. Mas sobre isso, ninguém fala mais nada.
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