Agência Experimental de Comunicação
Ciências da Comunicação - Unisinos

30/05/2008, 19h26min

Jornalista pede desculpas pelas ofensas aos alunos da Unisinos

Juliana de Brito e Camila Vargas
Estagiárias de Jornalismo

Camila Vargas
Políbio Braga

Políbio Braga é jornalista há mais 40 anos e durante sua trajetória colecionou polêmicas. Depois de ser expulso de vários veículos de comunicação, por motivos que, segundo ele, envolvem questões políticas e desavenças com editores, Políbio acabou sendo afastado da mídia. Mesmo com as empresas jornalísticas fechando as portas, ele não conteve sua personalidade explosiva e há seis anos criou um site sobre política, expondo suas opiniões.

E foi por este meio que o jornalista atacou a Unisinos no dia 15 de maio. O motivo foi a palestra Comunicação e Mobilização Popular, uma conversa com o MST compor a programação da Semana da Comunicação.

A assessoria de imprensa da Unisinos se pronunciou em seguida. Em uma carta ao jornalista, afirmou que a Universidade não carrega qualquer preconceito, repudiando os comentários ofensivos. A resposta dele foi imediata e irônica.

A repercussão atingiu também os alunos, que enviaram críticas às declarações de Políbio. Em uma troca de e-mails, publicada no blog de um estudante, ele respondeu de forma ríspida, dizendo que os “alunos da Unisinos costumam ser meio-analfabetos”. Para esclarecer essas questões e definições do jornalista, o Portal3 o procurou para uma entrevista. Ele se dispôs a receber a equipe em seu escritório, no bairro Petrópolis, em Porto Alegre, para uma conversa que durou cerca de uma hora. Com um clima chuvoso e frio desta quinta-feira, 29, ele respondeu todas as perguntas, sem papas na língua.

Portal3 - Como o senhor ficou sabendo da palestra Comunicação e Mobilização Popular, uma conversa com o MST na Unisinos?

Políbio Braga – Eu recebi um e-mail de um aluno da Unisinos me mandando a programação da Semana da Comunicação. Me convidando para ir, inclusive. Aí eu fui olhar a programação e vi um item chamando para uma palestra do MST, que representantes do movimento falariam a respeito das possibilidades que se abrem no mercado de trabalho nos movimentos sociais para os alunos da Unisinos. Eu achei um absurdo, porque é só olhar o site do MST, ou então a newsletter (do Movimento) “Letra viva”, ou ler os estatutos do MST, tudo que ele tem produzido, ele coloca claramente que é um movimento comunista. Ele não diz “eu sou um movimento comunista”, mas: “Nós somos um movimento de caráter socialista, adotamos como idéia básica o socialismo científico”. Ora, qualquer pessoa que entenda de filosofia, que já leu alguma coisa, sabe que socialismo científico é como o próprio Karl Marx e Friedrich Engels trataram de denominá-lo de comunismo.

Socialismo científico, segundo eles, era o caminho para o comunismo. É o nome técnico do comunismo. O que significa isso? Significa acabar com o mercado, acabar com a democracia, pelo menos como nós a conhecemos. Ou seja, o capitalismo, com o mercado livre, acaba com a democracia representativa, com a liberdade política nos termos que nós a conhecemos aqui no Ocidente. Então, se o MST visa isso, ele visa acabar com o mercado. E se ele visa acabar com o mercado, como ele vai, em uma sala de aula, dizer para os estudantes como ele tem que se colocar no mercado? Se ele deixa claro que quer acabar com o mercado... Ele poderia até dizer: “Mas enquanto eu não acabar com o mercado, as possibilidades que tem de trabalho nas organizações sociais são essas”. O MST tem de deixar claro isso.

Agora, eu quero deixar bem claro que eu não sou contra que uma universidade chame qualquer organização, qualquer entidade, qualquer pessoa, seja da direita, da extrema-direita, seja da esquerda, da extrema-esquerda, não vejo problemas. Até porque eu acho que no âmbito da universidade que se ferem os contraditórios. Acho que não pode fazer um jogo oblíquo. Querem convidar o MST para fazer um debate ideológico? Tudo bem; vamos debater o mercado? Ótimo. Então vamos pegar o cara do MST e eu, o Políbio Braga, cada um de um lado. O MST vai dizer: “Eu quero acabar com o mercado. Quero uma economia centralizada”; e eu: “Eu quero o mercado e não quero economia centralizada”.

Eu achei que a palestra é uma contradição enorme. É uma maneira oblíqua de fazer propaganda ideológica para os alunos.

“A universidade está enganando
os alunos e as pessoas que estão
tomando conhecimento de isso aí”

Camila Vargas
Políbio Braga

Portal3 – O senhor disse que “cada aluno da Unisinos paga até R$ 1.200,00 por mês para os jesuítas enfiarem esse tipo de trampa ideológica nas suas cabeças”. Poderia esclarecer essa afirmação?

Políbio Braga – Convidar alguém que é visceralmente contrário àquilo que ele está falando é uma trampa, é um engano. Está enganando. Eu acho que, no caso, a universidade está enganando os alunos e as pessoas que estão tomando conhecimento disso. A universidade sabe muito bem que o MST quer acabar com o mercado, portanto, não pode, na minha opinião, fazer crer a quem está lendo aquilo que ela vai lá para dizer: “Olha, as oportunidades que vocês têm no mercado das organizações sociais é amplo, você vai poder trabalhar com isso ou com aquilo”. Quando nós sabemos que não é isso que o MST quer, ele quer justamente ao contrário. Ele visa um regime igual ao de Cuba, Vietnã ou China, que só têm um jornal. O jornalista tem de fazer só uma coisa.

É nesse sentido que eu digo que é a trampa. Eu não tenho elementos para dizer que outras trampas ideológicas os jesuítas da Unisinos elaboram internamente, mas sei que existe, eu já falei disso inúmeras vezes. Eu teria que pesquisar para ver outras jogadas dos jesuítas.

Agora, se os jesuítas da Unisinos estão à procura de se redimir...  Porque em 1.500 fizeram aqui o jogo dos imperialistas portugueses para matar todos os índios. Eles ajudaram a matar. Vieram com os soldados portugueses para o Brasil, enquanto os soldados matavam todos os índios eles diziam: “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Matavam todo mundo, só que “mandavam” tudo para o céu. Eu não tenho nada a ver com isso. Se eles querem se redimir com isso, eu vou denunciar eles.

Portal3 – Mas, Políbio, e nesse sentido de “enfiarem essas ideologias nas nossas cabeças”, o senhor acha que não seria algo que nós, alunos, pudéssemos filtrar?

Políbio Braga – Eu não sou, sinceramente, contra que qualquer movimento de direita, esquerda, seja o que for, de extrema direita, extrema esquerda, tenha que fazer a cabeça das pessoas, de jeito nenhum. Eu não sou contra isso. Acho que é o direito de qualquer um. Vou defender as minhas posições e se você é comunista, por mim pode defender. Estou cheio de amigos comunistas. Já tive preso pela esquerda inúmeras vezes. Hoje não estou mais nesse campo, mas não tenho esse problema. Eu debato com qualquer pessoa. Não sou contra isso.

Eu sou contra é que pessoas com responsabilidades sobre alunos usem de má fé, ou, de uma maneira oblíqua, não vendam o peixe direito. Por exemplo, se a Unisinos resolve: “Vamos fazer um debate sobre esquerda e direita”, eu não sou contra isso. Sou contra é você colocar para falar para alunos, sobre um assunto específico, pessoas que, ou não estão habilitadas para falar sobre aquilo, ou são visceralmente contra aquilo e vão lá no “manto” de que são a favor. Vão enganando. Como se fosse uma máscara. Eu sei disso.

Acho que um professor, em uma universidade, tem uma obrigação de inquirir sobre os palestrantes que ele está levando, “quem é esse cara?” Vamos falar sobre física quântica, vai levar o Políbio Braga para falar sobre física quântica? Não, vai levar um cara que entenda de física quântica que possa contribuir para os alunos. Se fosse um debate lá dentro sobre o mercado de trabalho, para mostrar a diferença entre o mercado de trabalho, em um regime que o MST defende e o mercado de trabalho que nós temos hoje no Brasil... O que eu não concordo é que coloquem alguém para falar como se fosse a favor, enquanto ele é contra aquilo ali. Eles usam as palavras para esconder o que estão pensando. E isso, para um aluno, é a pior coisa que pode acontecer. Seria como tu teres um mestre, um professor, um palestrante, que fica usando a palavra para esconder o que pensa e até dizendo o contrário do que está pensando. Isso é muito desonesto e faz mal para os alunos, pois eles estão ajudando a formá-los.

Portal3 – O senhor acredita que os alunos têm capacidade de distinguir se os palestrantes estão tentando persuadir ou se estão, realmente, mostrando o mercado de trabalho que existe nos movimento sociais?

Políbio Braga – Acho. O que eu estou dizendo é que não há o porquê levar uma pessoa que não tem uma contribuição efetiva a dar, para que os alunos realmente possam ter um panorama do mercado de trabalho. É só isso. Porque esse cara está indo lá para desmistificar. Ele quer acabar com essas condições de mercado de trabalho. É só ler o que eles mesmo escrevem. Se ele tiver honestidade ideológica e intelectual, ele vai dizer isso lá. Se alguém questionar, ele vai dizer: “No futuro, o nosso objetivo é acabar com o mercado de trabalho”. Ele até pode dizer que não quer acabar com o mercado de trabalho e, sim, com o capitalismo. Mas por capitalismo leia-se mercado.

Ele até pode dizer “eu não quero falar em comunismo, eu vou falar de socialismo”. Porque comunismo assusta. Mas que tipo de socialismo você quer? Há milhares tipos de socialismo. Cobra isso dele para você ver. Se ele tiver honestidade intelectual, ele vai dizer: “O socialismo científico”, que é o comunismo. Duvido que ele vá lá para dizer: “Eu quero um socialismo do tipo ‘Trabalhismo da Inglaterra’, do tipo ‘Mitterrand’, da França, da ‘Bachelet’ ”. Não vai dizer, não.

Portal3 – A sua visão negativa com relação ao MST surgiu a partir de que fatos?

Políbio Braga – Da leitura, das ações. É o que eu te digo, tem o site deles. É só entrar e ler o que eles estão propugnando no site e na newsletter “Letra viva”. E no que eles dizem e fazem? O fim da propriedade. O mercado sem propriedade não existe. Se não tem propriedade não tem mercado. Então, quando uma pessoa diz assim: “Eu quero o fim da propriedade”, para mim, ele já está se colocando como meu inimigo. Se ele quer o fim da propriedade, ele quer me tirar do jogo. Ele quer acabar com o mercado, portanto, fico sem possibilidade de trabalhar onde eu bem entender, só posso trabalhar com o Estado; de ganhar aquilo que eu mereço pelo que eu posso fazer, porque o Estado não avalia isso, todo mundo ganha igual.

“Quando ele invade uma propriedade,
quando ele bate nas pessoas, quando
ele rouba, quando ele assalta,
quando ele viola a legislação. Quando
uma pessoa qualquer, seja o
MST ou não, viola a lei, ele está
se automaticamente em um campo
contrário ao meu, porque eu respeito a lei.”

Isso tudo me coloca em situação de divergência. E, na prática, porque o MST, através das suas ações, ataca justamente todos os meus aliados, as pessoas que defendem os mesmos pontos de vista que eu defendo. Quando ele invade uma propriedade, quando ele bate nas pessoas, quando ele rouba, quando ele assalta, quando ele viola a legislação. Quando uma pessoa qualquer, seja o MST ou não, viola a lei, ele está automaticamente em um campo contrário ao meu, porque eu respeito a lei. A lei foi feita por mim e para mim, para me proteger. Portanto, quem ataca a lei está atacando a mim. Todos que violam a lei estão me atacando. Que se revogue as leis, vamos trabalhar para mudá-las. Agora, não vou acabar com as leis as violando. Toda semana eu vou para Gramado e vivo tomando multa na estrada. Toda semana eu fico puto da cara. Mas nem por isso eu vou pegar o meu carro e jogar em cima do posto da Polícia Rodoviária Federal. Eu vou tentar mudar a lei. Vou escrever: “Que barbaridade, tem uma hora que tem um pardal 50km/h, outra hora 60km/h, eu nunca sei qual é a velocidade que eu tenho que andar”. Eu acho uma sacanagem.

Portal3 – O senhor sustenta que “convidar o MST para mostrar as possibilidades do mercado de trabalho para os alunos equivale a convidar o PCC para fazer o mesmo”. O que, então, o senhor considera que seja importante ser tratado com os alunos sobre o atual mercado de trabalho?

Políbio Braga – Convidar pessoas que conhecem o mercado de trabalho e que possam ajudar vocês a realmente vislumbrar oportunidades no mercado de trabalho. Pessoas que tenham uma contribuição efetiva, que pode ser, inclusive, nos movimentos sociais. Porque pode chegar uma pessoa lá e dizer: “Enquanto esses movimentos sociais de esquerda não tomarem poder e instalarem uma república sindicalista, comunista, seja o que for, tem um mercado de trabalho ali”. Claro que tem. O MST precisa de jornalistas para vender o peixe dele, a CUT precisa, o Cpergs (Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul) precisa. Pelo menos enquanto não virar esse troço. Os da direita também precisam.

Portal3 – Mas enquanto “não virar”, enquanto eles não chegarem ao objetivo, o senhor não acha que esta não seria uma oportunidade que estaríamos perdendo?

Políbio Braga – Primeiro eu não aconselharia ninguém a trabalhar com esses caras. Eles são delinqüentes e bandidos. Para mim, quem trabalha com eles é delinqüente também. Então, eu não acho que seja uma oportunidade trabalhar para o MST. Os movimentos sociais são legais. O que não é o caso do MST. Ele não tem personalidade jurídica própria, não é institucionalmente organizado. É um movimento clandestino, ele não tem uma liderança, uma presidência, uma direção claramente identificada. É clandestina. Então, para mim, esse tipo de organização é criminosa, igual ao PCC, por isso que eu falei em PCC. Ele também não é institucionalmente existente, não tem personalidade jurídica. Nesses casos, quem vai trabalhar junto está no campo da ilegalidade também, e é criminoso igual. Eu estou abstraindo aqui o aspecto das preferências ideológicas tuas, minhas. Eu estou tentando analisar do ponto de vista legal. Quem se coloca na clandestinidade, para mim, está contra mim. E não me interessa se é político, se é assaltante, assassino.

Portal3 – O senhor tem alguma opinião formada sobre a Unisinos?

Políbio Braga – Até tenho ela de boa conta, acho uma boa universidade. Eu fui seu aluno. Meu primeiro ano do curso de Direito fiz na Unisinos, mas me arrependi profundamente e saí e fui para a UFRGS.

Portal3 – Por que o senhor se arrependeu?

Políbio Braga – Porque é uma droga! Uma droga não injetável. Pela questão dos professores e do ambiente universitário. Não me agrada o ambiente universitário não laico e religioso. Eu acho que todo ele é dirigido, por menos que pareça, é. Eu preferia a Igreja fora da escola. Eu gostaria que ela fosse toda laica. A Igreja fora da escola.

“Desde criança eu fui um guri brigão,
eu brigava muito na rua. Até os 16,
17 anos eu brigava de soco com
tudo que era vagabundo. Depois
dos 18 eu comecei a achar muito
perigoso, porque eu ia acabar
me matando, ou matando alguém.”

Portal3 – O senhor já comentou que responde a uma demanda judicial. Com as ofensas pessoais em seu site, o senhor teme isso?

Políbio Braga – Eu tenho muita demanda judicial, são doze processos contra mim, mas eu não temo. A Unisinos, se quiser, pode vir que eu estou esperando. Eu não tenho medo de nada, nem de ninguém. Eu me criei assim, isso faz parte da personalidade da pessoa. Desde criança eu fui um guri brigão, eu brigava muito na rua. Até os 16, 17 anos eu brigava de soco com tudo que era vagabundo. Depois dos 18 eu comecei a achar muito perigoso, porque eu ia acabar me matando, ou matando alguém. Aí passei a brigar na política e no jornalismo. O meu jornalismo é um jornalismo que reflete a minha personalidade. Aquilo que eu faço ali não é uma coisa que estou inventando por interesse de mercado. Eu faço aquilo porque é a minha personalidade. Eu sou uma pessoa muito combativa, é da minha natureza. E eu fiz Direito para me defender.

Portal3 – Nunca pensou em cursar Jornalismo?

Políbio Braga – Não. Eu acho que não deveriam existir faculdades de Jornalismo. Eu acho que é uma inutilidade. É um talento inato da pessoa. A pessoa nasce para aquilo. Mas não acho que a faculdade prejudique a pessoa, eu acho que ela pode melhorar a pessoa, mas ela não vai formar um jornalista, o cara não vai sair dali um jornalista. Prejudicar não prejudica, só que é desnecessário, porque no mundo todo são poucos os países que exigem isso. Nenhum país civilizado exige diploma de jornalista.

Portal3 – O seu site é reconhecido como um dos melhores que abordam política. Essa discussão com a Unisinos foi uma forma de aumentar os acessos?

Políbio Braga – Não. Quem me lê nota que todos os dias eu critico alguém. Com Unisinos aconteceu que a reação foi muito grande. E o outro lado amplificou demais o caso. Mas eu não fiz para ganhar leitor. O meu foco nem é jovem. Eu não escrevo para estudantes. Eu até fico perplexo quando, às vezes, um jovem lê alguma coisa do meu site. E daí eu logo penso: “Pô, mas o que eu fiz de errado”. Porque quem me lê logo nota que eu não estou escrevendo para o jovem. Estou escrevendo para pessoas já estruturadas.

Portal3 – Muitos alunos se manifestaram sobre a tua crítica. Essas manifestações, em sua maioria, eram favoráveis ou contra?

Políbio Braga – Poucas favoráveis. Digamos 80% contra as minhas posições. Mas eu me surpreendi um pouquinho foi com o conteúdo de algumas respostas, que, mesmo contrárias à minha posição, estavam muito bem redigidas. Isso foi uma surpresa. Eu cheguei até a responder para alguns alunos perguntando se o professor deles tinha revisado o texto, porque estavam bem escritos, bem colocados. Eu não peguei erros grosseiros. Eles não estavam desrespeitosos, mas não estavam respeitosos. Estavam na porta da ofensa, não chegou à ofensa. Então, para mim, foi até legal, porque eu passei a ter uma opinião melhor sobre os alunos do Jornalismo.

Eu gosto quando sai do casulo, que a pessoa é crítica. E eu gostaria que todos os alunos fossem críticos, porque o cara tem que ser crítico, não poder ser a favor, tem que ser contra. O jornalista tem que ser contra o governo, tem que ser contra esses caras, tem que ser contra o Políbio Braga. Se for respeitosamente, não tem problema nenhum. Então, eu recebi bem as manifestações. E respondi no mesmo tom que me deram. Se o cara dá um tapa na orelha eu dou dois na dele. Não quero saber.

Portal3 – Então o senhor acha que um aluno de Jornalismo não tem capacidade de criar um bom argumento?

Políbio Braga – Eu acabei de dizer que eles têm até boa escrita. Mas eu achei que não tinham. Eu achei que vocês não estavam tão preparados assim. Mas o que eu notei foi que estão melhores preparados do que eu mesmo achava. Tem um aluno que me criticou muito e eu indiquei para um amigo da Coletiva, mandei o e-mail do cara e disse que acho que ele deveria chamar esse aluno para conversar, porque ele escreve muito bem.

Portal3 – O senhor seleciona as críticas dos leitores para publicar?

Políbio Braga – Sim, eu seleciono. Com o critério de que tenha escrito com poucas linhas. Não tenho muito espaço. Os caras me mandam um catatau, um inferno. O conteúdo eu olho também. Se não é ofensivo. Mas tanto faz se é de direita ou de esquerda. A maioria das pessoas que me lêem já me lêem porque não são de esquerda. Uma minoria de esquerda me lê porque é masoquista ou porque quer me encher o saco. A proporção é assim: de cada dez, oito são de direita ou de centro, ou é de esquerda, mas não fanático. Quando me elogia ou me ataca gratuitamente eu não coloco. Eu coloco só se o comentário tem algum conteúdo que possa, de alguma forma, contribuir para que quem esteja lendo fique melhor informado, ou melhor formado sobre o assunto. Ou seja, construa criticamente, ou não, mais massa crítica para o leitor.

“Como eu estava brabo na hora, pensei:
“Vou ofender esse cara”. Mas eu nem
tenho opinião formada sobre isso, aliás,
nem acho que sejam analfabetos, foi
para ofender mesmo. Foi gratuito,
peço desculpas.”

Camila Vargas
Políbio Braga

Portal3 – Partindo de que pressuposto o senhor chegou à idéia de que os alunos da Unisinos “costumam ser meio analfabetos”?

Políbio Braga – Na verdade, foi uma reação infantil minha. Eu tenho o direito de ser infantil, né? Foi uma bobagem, fiquei brabo na hora. Quis ofender o cara, na verdade, só quis ofender, não é a minha opinião. Mas também não é o contrário, eu não sei nada. Eu não conheço, eu não tinha base para dizer aquilo. Nem dizer que eram analfabetos, nem que não eram analfabetos. Como eu estava brabo na hora, pensei: “Vou ofender esse cara”. Mas eu nem tenho opinião formada sobre isso, aliás, nem acho que sejam analfabetos, foi para ofender mesmo. Foi gratuito, peço desculpas.

Portal3 – Com 40 anos de jornalismo qual a dica que o senhor dá para os estudantes de comunicação?

Políbio Braga – A dica principal é quem tiver possibilidade e chance, mude de profissão. Quem não tiver, sofra. Não aconselho em hipótese nenhuma a ser jornalista, porque não vale a pena, não tem renda para viver. Não consegue viver.
Portal3 – Mesmo gostando do que faz?

Políbio Braga – Gostando do que faz, tudo vale a pena. Eu acho que sim, se gostar mesmo do que faz daí não tenha dúvida. Mas se ele tiver a possibilidade de buscar outra alternativa para ter uma renda maior, porque não vai ter renda. Os poucos eleitos para a RBS vão ter uma renda um pouquinho melhor. Os outros, todos, sem exceção, vão ter sérios problemas financeiros. Se tu és muito bom, tu vai ter oportunidades e vai ganhar bem, mas é um em mil.

“Se eu fosse quietinho, bonzinho
e baixasse a cabeça, hoje,
provavelmente, eu estaria
como diretor da RBS. Eu cheguei
a gerente executivo e eu saí
por brigar com o diretor.”

Portal3 – O senhor está satisfeito com o que faz hoje?

Políbio Braga – Mas hoje eu estou com 67 anos. Estou satisfeito com o que eu faço e com a minha renda de cinco anos para cá. Depois que eu comecei com o site. Quer dizer, eu estou falando de cinco em 40 anos. Trinta e cinco anos vivendo em uma merda sem tamanho. Esperar 35 anos para poder viver um pouco melhor, não é brincadeira. Sempre fazendo o que gosto. Mas tem nesse caminho tem coisas que só maluco, porque eu simplesmente briguei com todo mundo. O meu editor levantava a voz comigo e eu dizia: “Baixa a voz”, ele respondia: “Mas como? Eu sou o teu chefe”. E eu rebatia: “Chefe o cacete, você não levanta a voz comigo”. Então aí tu já vais para rua. O cara começa a escrever como eu escrevia em uma época, no Informe Especial, da Zero Hora, eu acordava de manhã e a metade das notas não eram minhas. Ou vai agüentar sempre essa situação ou vai agüentar duas semanas, como eu. Eu tive muitas oportunidades de melhorar na vida, eu não abracei por coisas desse tipo, porque eu sou muito brigão. Se eu fosse quietinho, bonzinho e baixasse a cabeça, hoje, provavelmente, eu estaria como diretor da RBS. Eu cheguei a gerente executivo e eu saí por brigar com o diretor.

Portal3 – Mas o senhor se arrepende disso?

Políbio Braga – Não me arrependo. Eu seria incapaz de ficar, isso ia me fazer mal, ia me dar um câncer. É que nem servidor público, não dá. É um negócio maluco. Eu não consigo pensar em ficar um dia inteiro sentado em uma mesa sem fazer nada, fazendo porcaria, fazendo sempre a mesma coisa. Eu fui duas vezes e estava me enlouquecendo. Eu disse para ele que eu iria enlouquecer, ele me disse: “Mas tu vai ganhar 20 paus”. Eu respondi: “Mas não adianta, nem 100 paus. Eu vou ficar doido, eu vou matar um cara aqui dentro”.

Portal3 – E a liberdade de imprensa?

Políbio Braga – Eu sou a favor, mas eu acho que tem limites, e os limites estão na lei. Eu acho que é um direito do ofendido me processar. Muitas vezes, eu fui condenado e eu mesmo reconheço que deveriam me condenar.

Portal3 – E o que o senhor projeta para quem está começando agora?

Políbio Braga – Eu acho que vocês devem se preocupar com a convergência, que é a junção da comunicação com a internet. Eu estou nisso. Eu estou me renovando todo dia. Não penso em me aposentar, só na hora que eu não conseguir mais pensar. Eu sei que vai chegar um dia que eu vou ter que parar, e eu espero que seja somente no dia em que eu morrer.
Na verdade, foi uma questão minha de mercado. Eu não tinha mais mercado para trabalhar como profissional, ou eu tinha que ser empreendedor. Então aquela necessidade de mercado me fez fazer jornalismo na internet. Foi um início que se abriu para mim. Eu podia fazer um blog ou um site sobre esportes, sobre colunismo social, sobre moda... Mas eu fui fazer sobre aquilo que eu conheço, porque eu acho que as pessoas devem fazer coisas que conhecem. A única maneira de se dar certo na vida é fazer coisas que se conhece.

Portal3 – O senhor saiu dos veículos por pressão do PT, a criação do site não foi por nenhuma desavença partidária?

Políbio Braga – Não. Porque eu não tinha como ir trabalhar em alguns jornais, porque eu estava vetado em todos, como estou até hoje. Zero Hora, Correio do Povo me disseram: “Aqui você não volta mais”. Eu não tinha como voltar. Ou eu ia fazer um jornal próprio, ou ter uma rádio própria, uma televisão própria. Como eu não tinha recursos para fazer nenhum desses, eu fui fazer na internet que não me custa absolutamente nada, qualquer um pode fazer.

Eu tenho total liberdade como eu nunca tive em toda a minha vida. Por outro lado, se  envolve uma responsabilidade muito grande, porque eu preciso me cuidar muito. Eu tomo muito processo. Porque antes os jornais respondiam os processos, agora eu respondo. Por exemplo, eu faço críticas a Unisinos, de repente a Unisinos não gosta das críticas que eu estou fazendo, ela pode ajuizar um processo contra mim. É um direito que ela tem. E eu vou ter que me defender, que é o que eu faço com os vários processos que estou respondendo.

 

 

 


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