| 03/03/2008
Azar cumulativo
Daniela Cristina Machado
Estudante de Jornalismo
Ana Lúcia iniciou aquela quarta-feira
de mal com a vida. Devido a sua fadiga crônica, acúmulo
de várias noites mal dormidas, não escutou o relógio
despertar. Perdeu a corona, o café e o banho. Esqueceu
de olhar a temperatura no termômetro da cozinha e, na
pressa, vestiu a blusa de manga comprida que estava
sobre o monte de roupas a passar. Desceu as escadas
do prédio correndo e chamou um táxi. Lá se foi o dinheiro
de três almoços, pensou ela.
O atraso não foi tão grande assim,
meia hora apenas. O restante da manhã foi tranqüilo,
até o momento em que seu chefe pediu a gentileza dela
sair mais cedo e pagar uma conta do escritório. Ana
Lúcia não pensou duas vezes em se dirigir ao banco menos
movimentado da cidade, que por sorte, ou azar, era próximo
ao seu trabalho. No caminho recebeu uma cantada extremamente
chula de um mendigo que empurrava uma bicicleta. O sol,
já a pino, anunciava 30º. Ela arregaçou as mangas e
seguiu em frente.
A coitadinha esqueceu que o dia
era de pagamento e topou com uma fila que se desdobrava
em três curvas, parecendo uma cobra cascavel pronta
a dar o bote. Quando lançou o olhar sobre os quatro
guichês suas pupilas iluminaram-se. Todos estavam em
operação. Um segundo depois suas bochechas murcharam.
Uma das atendentes saiu para o almoço. Sua boca espremeu
fortemente. A segunda moça foi almoçar. A fila parecia
uma orquestra de faces carrancudas.
Quarenta minutos se passaram e
em um dos computadores o sistema caiu. Dez minutos depois
a única máquina restante resolveu fazer companhia a
sua colega eletrônica. Quanto azar, restavam apenas
duas pessoas na frente de Ana Lúcia. Neste meio tempo,
uma outra funcionária do banco decidiu oferecer os serviços
do estabelecimento aqueles cuja vontade era mandar ela
e as malditas vantagens do cartão de crédito para um
outro lugar.
As coisas se normalizaram, tudo
foi resolvido. Quer dizer, nem tudo. O estômago de Ana
Lúcia ruminava enlouquecidamente na espera de receber
ao menos algumas migalhas. Faltavam quinze minutos para
o expediente recomeçar. O botequim da esquina anunciava
a promoção "Pague um leve dois: compre uma empada e
ganhe um copo de refrigerante." Perfeito.
A tarde foi catastrófica. As tarefas
trasbordavam pelas mesas, o telefone não parava de tocar
e o chefe estressado gritava com os funcionários. Enquanto
isso Ana Lúcia sentia o suor escorrer por detrás do
pescoço e a azia não dava tréguas mesmo depois do sal
de frutas.
O relógio da igreja soou, 18 horas.
Final do expediente e início de uma jornada de descanso,
pensou Ana Lúcia. Ficou só no pensamento. O ônibus,
como sempre, estava lotado e cheirava, como de costume,
a suor e cigarro. Para distrai-se começou a contar as
paradas em ordem decrescente. Só voltou a realidade
quando uma criança, embalada pelo colo da mãe e pelas
paradas e arrancadas da condução, vomitou sobre seus
pés. O cheiro pavoroso entranhou em todos os olfatos
que habitavam aquele lugar. A distância do apartamento
parecera ter aumentado em 5 km.
Desembarcou do transporte coletivo
e atirou com raiva seus sapatos na lixeira. Ele havia
sido usado apenas sete vezes. Subiu as escadas, correu
para o chuveiro. Ali permaneceu por vários minutos.
A água morna percorria seu corpo de modo a proporcionar
prazer por cada poro que passava. Já no quarto, Ana
Lúcia dispo-se a tirar um cochilo até a novela começar.
Perdeu a novela, mas ganhou a melhor noite de sono de
sua vida.
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